TUOV 50 EXPOSIÇÃO E RELATOS

O picadeiro vazio. A Festa está para começar. Viva o Tuov, vivam todos que vêm festejar!!,

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Duddu Barreto Leite, matriarca rebelde I

Nossa pessoa, persona, personagem, de hoje é Luiza Helena Barreto Leite Valdez, a Duddu Barreto Leite, educadora, atriz, diretora, blogueira, roqueira de primeira hora no Brasil, chef de cuisine e restauratrice, uma pioneira entre as garotas-propaganda, diretora de produção cinematográfica, administradora cultural, modelo ocasional, ativista política por mais de seis décadas, mãe de três e de outros tantos que acolheu sob suas asas, amiga de seus/suas amigos/amigas. Em suma, como se dizia na gíria dos tempos em que crescemos, ela e eu, Pedra 90. Pessoa valorosa, que não falta à palavra.

Duddu tem 83 anos. Está doente, internada na Santa Casa da Misericórdia de Lorena, São Paulo. Cercada por amigos que são parentes e parentes que são amigos. Hoje, quero expressar meu amor por ela publicando um artigo de Luiza Barreto Leite editado pela primeira vez em fevereiro de 1965 no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro e incorporado ao livro A mulher no teatro brasileiro, lançado no mesmo ano por Edições Espetáculo. Haverá outros artigos sobre esta matriarca rebelde é só um começo.

DUDU, MODÉSTIA À PARTE, É MINHA SOBRINHA

Luiza Barreto Leite

(Fevereiro de 1965)

Sobrinha e quase filha, pois para meus desocupados braços de solteira veio a mais linda africaninha loura jamais posta no mundo, quando minha irmã Maria, já desaclimatada de nossa terra, recaiu do impaludismo adquirido na Guiné Portuguesa, de onde viera em prevista viagem de repouso, trazendo Vera no bojo do ventre.

Era preciso cuidá-la duplamente e nossa mãe deixou comigo a menina de dois anos e pouco, que a todos seduzia com seus grandes olhos sorridentes, um imenso e permanente mostrar de dentinhos brancos, através dos quais gargalhava palavras ininteligíveis, metade em patuá bijagó, metade em português colonial. Passei a levá-la à praia e ensinar-lhe brasileiro; em breve todos a namoravam mas só eu a entendia. Chamava os moços de mamãe, indistintamente e todas as moças queriam pajeá-la. No ponto em que sentasse brotavam da areia tantos rapazes quantos tatuís e muitos namoros pegaram com a brincadeira de construir castelos.

Castelos, na verdade, tanto na areia, quanto no ar e no mar têm sido até hoje a herança materna de Luiza Helena Barreto Leite Valdez, carteira modelo 19, herdada do pai industrial e português. O resto é dela mesma, do que sobrou da adorável menina de linguagem enrolada, para a encantadora moça cuja vida é um constante girar de carretel. Esse girar de atriz Helena Barreto Leite – Dudu em família de um sem fim de amigos – outra coisa não é senão o enrolar e desenrolar de um matriarcado tão tradicional na formação do teatro brasileiro, quanto na reformulação do mundo moderno.

Nada pretendo dizer das idas e vindas da garota-mulher, ora em Paris, onde estava sua mãe, ora em São Paulo, onde estava sua carreira, ora no Rio, onde ficava sua tia, sempre à espera dos que partem e voltam. Quero apenas falar do pequeno carretel que começa finalmente a utilizar seu fio de ilusão para tecer uma imponderável rede de ternura cultural, capaz de envolver todas as crianças e todos os operários ao seu alcance. São os castelos herdados que movimentam seus fantasmas lá pelas bandas de São Paulo, onde o teatro vem encontrando aquele apoio por aqui sonhado em vão por quantos o acreditam inseparável da educação. E assim muitos dos sonhos que sonhei, muitos dos projetos que projetei, começam a funcionar com minha filha mais velha e também a mais pródiga, aquela que caiu da África em meus braços de solteira e nunca deixou de voltar a eles quando em seu terreiro o galo deixa de cantar e a mãe que a gerou anda por longes terras.

E ainda há quem diga que não vale a pena soltar sementes ao vento ou plantá-las nos vasos da pequena varanda de nossos restritos apartamentos. A semente do teatro didático realizado nas próprias escolas, por e para crianças e adolescentes, obsessão frustrada de minha vida, teria sido apanhada por esta sobrinha no vaso de minha janela, ou durante o curso realizado no Teatro Nacional Popular, quando, já estrelinha do Teatro Brasileiro de Comédia, foi para Paris com minha irmã Maria? Pouco importa, só interessa vê-la definitivamente (segundo parece e espero) integrada no belo movimento que o estado de São Paulo vem mantendo há alguns anos, tanto nas escolas da capital quanto nas do interior, Dudu pertence à equipe destacada para orientar técnicamente as professoras de Barretos, Rio Claro, São Paulo, Americana e Batatais; onde estão sendo realizadas as primeiras experiências de educação de grupo através do teatro. Seu setor é Americana, onde passa todas as segundas-feiras e parte das terças, só voltando à capital com tempo de interpretar a esfuziante Lisette, em “Caprichos do Amor e do Acaso”, de Marivaux, que, em tradução de Eduardo Manuel Curado esta em seus últimos dias de sucesso no Teatro da Aliança Francesa, alugado pelo Teatro Popular do Sesi para a bela experiência de oferecer aos operários um repertório dos mais requintados, sob a direção de Osmar Rodrigues Cruz, com cenários de Clóvis Garcia.

A aceitação foi total, mas o problema de casas de espetáculos, apesar de menos agudo, também existe na capital paulista, interrompendo a programação, feita a longo prazo e longo alcance cultural, mas nova sede foi encontrada para tão importante obra. Nize Silva é a outra jovem profissional do sonho que compõe o elenco, interpretando Silvia.

“A Sapateira Prodigiosa”, de Lorca é a continuação do programa para o trabalhador. Além do que, juntamente com Nilda Maria, sua irmã na posse do terceiro castelo de sonho, praticará todos os malabarismos para mantê-lo em pé, continuando a fazer a felicidade das crianças que, no Teatro Infantil e Juvenil, de fantoches, sombras e marionetes, encontram o prazer de viver em um mundo tão pouco preocupado com elas. E nas manhãs dos sábados e domingos, desse São Paulo sem praias e de sol intermitente, que Nilda e Dudu levam seus bonecos às escolas e asilos onde meninos de todas as raças as recebem como se fossem fadas. E são. Que Deus as proteja e permita a realização total de seus sonhos. Se os homens já estão chegando à Lua, por que não poderemos manter a estabilidade dos castelos de sonho?

Contagem Regressiva

Série documental em quatro partes:
Remoções – https://www.youtube.com/watch?v=OoblOhnXCyE&t=53s
Controle Urbano – https://www.youtube.com/watch?v=OoblOhnXCyE&t=53s
Zona Portuáriahttps://www.youtube.com/watch?v=sT6BAbnKD68&t=53s
Mobilidade – https://www.youtube.com/watch?v=qt6kuxTHnJs&t=68s
Melhor Documentário e Melhor Trilha Sonora no RioWebFest2016
Realização: Justiça Global e Couro de Rato (2016)


Uma viagem no espaço-tempo

Luiz Alberto Sanz

No curso científico (o atual ensino médio), fui implacavelmente mal em Física, o que me convenceu a largar os estudos e dedicar-me ao Jornalismo e às Artes do Espetáculo. Apesar dessa inimizade entre mim e a Ciência, sempre me fascinaram contos e romances de Ficção Científica, sobretudo os que difundiam conhecimentos e especulações sobre o espaço-tempo, viagens temporais ou intergaláticas, “buracos de minhoca” e multiversos.

Com o correr dos anos, pesquisando a linguagem cinematográfica, passei a compreender os filmes, grosso modo, como representações físicas de fatias do espaço-tempo, em que as três dimensões visíveis (profundidade, largura e altura) são comprimidas[1] e a quarta, o tempo, assume papel preponderante. Apesar de ser apenas percebida, é a que permite identificar ou diferençar dois eventos idênticos que ocorrem no mesmo ponto do espaço. Segundo uma citação muito repetida de Einstein o tempo é “uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão”).

Roteirizando CD-Roms educativos, passei a ver hiperlinks de texto, imagem e vídeo como portais ligando determinados eventos (pontos no espaço-tempo) com pessoas, personagens e acontecimentos passados e futuros e/ou universos paralelos[2].

Transmutação e distanciamento

A série documental Contagem Regressiva, de Luis Carlos de Alencar, é um bom exemplo desta minha visão. Não só é uma tetralogia em que eventos e pessoas de um episódio dialogam com os de outros, paralelos no tempo e no espaço, mas também abre esses portais para o que já aconteceu ou ainda está por vir. Além do mais, o que muito me agrada, o distanciamento de sua linguagem contribui para que o espectador reflita e construa, autonomamente, conexões com o tempo e o espaço atuais, retirando ao filme e aos fatos e pensamentos nele expostos o mero caráter de registros.

E aqui surge outra característica essencial dos registros, sobretudo os audiovisuais. Adquirem novos propósitos com o tempo, sem perder os originais. Transmutam-se. Em Dramaturgia da Informação Radiofônica[3], tratei deste fenômeno, que é comum às diferentes linguagens da Comunicação Social e das Artes Espetaculares, que se comunicarão

[…] sempre no presente, independentemente de emitir reprises, documentos históricos ou qualquer outro aspecto ligado à memória. A transmissão e a recepção estarão acontecendo naquele e só naquele instante. Reprises e retrospectivas trazem de volta ao presente o acontecido, a coisa feita, a ação agida. (…) só existem concretamente enquanto estão no ar (…). No momento seguinte serão lembrança, como no anterior foram expectativa, antecipação. [Capítulo III – Tempo e Espaço, do real ao imaginário, p63]

O espectador terá uma sensação nova a cada exibição.

Por mais conhecida que uma obra seja, ele perceberá sons e ideias que não correspondem ao registrado em sua alma e em seu consciente. Pode frustrar-se ou apaixonar-se ainda mais. Pode assombrar-se com detalhes que não apreendera da primeira vez. Mas cada audição será única e atual. Modificam-se as condições de transmissão e recepção. Não apenas do ponto de vista tecnológico. Também os tempos psicológico e biológico do ouvinte já não serão os mesmos, alterando sua receptividade. A ação – uma das três unidades clássicas (ação, tempo e espaço) – é dos fatores mais importantes que conduzem a isso. Dialeticamente, modifica a percepção do público e abre caminho para, numa segunda audição, a descoberta de aspectos não pressentidos. [idem]

Assim, as malfeitorias de autoridades e ex-governantes e a bravura, clareza crítica e compreensão da realidade dos resistentes nas lutas que antecederam os grandes eventos mediáticos e financeiros objeto do filme podem ser vistas e entendidas no cenário das suas consequências. Mas também lá está, capturada na sua mente como em um cubo no qual convive paradoxalmente com ela mesma, a História recente, atual e futura da luta de classes.

Sem distanciamento não há reflexão. O espectador purga o sofrimento dos personagens, sofre-o com eles, torna-se vítima dos malfeitores de sempre, os que oprimem, reprimem. Não é chamado a traçar suas próprias estratégias e táticas. Pode, reconheço, ser incitado a rebelar-se. Mas não se transmuta, transforma. Segue as regras do jogo. Não as define.

Tenho viajado com e por Contagem Regressiva enquanto escrevo e reflito. São meus guias suas ferramentas dramatúrgicas: roteiro, diálogos, fotografia, captação de som, trilha musical e de ruídos, locações, edição e direção (esta regência própria do fazer cinematográfico). E, como referências, os saberes, emoções e conhecimentos que formam o mosaico da minha compreensão do mundo. O que vivi, li, vi e escutei.

Caixa de mudança

Na série me fascinam, sobretudo, os prólogos e epílogos poéticos. Reforçam belamente as conexões entre os eventos, sequências e episódios. Desempenham um papel fundamental na construção e consolidação desse distanciamento que sobressai como a veia principal da dramaturgia do filme. Porém, Contagem Regressiva é obra de criação coletiva, um caleidoscópio no qual cada participante, incluindo o espectador, é um criador. E cada fragmento (planos, ruídos, falas, locação…) é uma unidade diferenciada que interage com outras em uma unidade de alta complexidade [4]. Não há desarmonia, mas tampouco há pasteurização. Cada um dos mosaicos que se sucedem no caleidoscópio, assim como cada um dos fragmentos que os compõem, pode ser recombinado, mas suas partes essenciais seguirão inseparáveis, pois contêm o todo.

Os versos de Eliane Freitas e a música tema de Mano Teko e MC Lasca circunscrevem cada episódio, no que seriam, convencionalmente, começo e fim, mas que, de fato, são aberturas, passagens de e para o tempo atual e outras narrativas.

— Quanto cabe na caixa de mudança?

Pergunta Elaine Freitas aos 16 segundos de Remoções. Sua voz suave, serena, amigável, contrasta com as ruínas captadas pelas imagens. A melancólica música de fundo serve de moldura e ajuda a perceber que aqui se fala de muitas caixas de mudança, não só das que recolherão

Os passos da primeira infância?
As paredes pintadas com nossas cores preferidas?
O sangue e a dor desta ferida
aberta à força do trator
tentando derrubar a história de conquista da moradia?

Estamos juntos, personagens, espectadores e realizadores, penetrando em uma caixa tetradimensional que nos mudará, para melhor ou para pior.

Logo mais, o funk carioca de Mano Teko e MC Lasca faz uma síntese e opina sobre o que vem e vai, enquanto corre o clip que introduz os títulos da série e do episódio:

Contagem regressiva para os jogos
Maior número de corpos
Medalha de caveirão
Recado desse prefeito é claro
Periquito um fracasso da militarização (dá não)
Trocar esse governo muda nada
Genocídio salta alto
Vem bala, vem remoção
Porto maravilha atende a quem?
Sem hoje, amanhã não tem
Sangue nos olhos, pé no chão

Este é, formalmente, o primeiro episódio da série. O que, considero, não passa de uma convenção. Poderá ser embaralhado com os outros, como acontece no Youtube, e assistido “fora de ordem”, livre da lógica aristotélica que condiciona a poética e a dramaturgia a terem princípios, meios e fins.

O que nos impede de começar pelo quarto episódio e ficar sabendo, com tristeza, que Elaine Freitas morreu, em 20 de julho de 2016, antes de a tetralogia ser terminada? De ouvir seus versos finais ditos para a câmera e senti-los no percurso das próximas três partes dessa nossa história, como um estímulo à nossas razão e imaginação?

O mundo que a gente nasceu sabendo conquistar
Se reduz ao chão na cidade de exceção:
Ali vai ficar a ruína da casa da qual me empurraram pra fora
A ruína do corpo sem nome ou memória
Da vida no vão pra outra ocupar seu lugar na plataforma.
Mas isso importa?
Com tantos fogos de artifícios pra distrair,
Com tanta convicção vazia para disputas entre bandeiras,
Como quebrar o silêncio ruidoso da celebração com as pedras dessas ruínas?
Uma voz é fraca pra gritar quando se encontra sozinha.
Só o encontro e o confronto desativam a bomba relógio em contagem regressiva.
Coletiva, uma nova construção pode ser erguida.
Coletiva, uma nova construção pode ser erguida.
[Elaine Freitas]

Polifonia

O que importa a cronologia, se agora está tudo acontecendo no mesmo momento e no mesmo lugar? Se vamos encontrar, no percurso, interlocutores articulados que nos revelam a realidade e os sonhos da Estradinha, da Favela do Metrô, da Vila Recreio 2, da Vila Harmonia, de Pedra de Guaratiba, Saúde, Gamboa, Santo Cristo, Morro do Pinto,

Acari, Alemão, Maré,
Providência, Chapéu, Cantagalo,
Pavão, Babilônia, Jacaré,
Manguinhos, São Carlos:

toda favela sempre sabe,
quando cala ou quando grita,
que a mão a ordenar e enfeitar a cidade
é a mesma mão que engatilha a chacina.
[Elaine Freitas]

Dores e anseios de todos, os negros, pobres e marginalizados da cidade, da região que a engloba, do estado que faliu junto com o município e do país que jamais conheceu sequer os preceitos fundamentais da Revolução Burguesa: Liberdade, Fraternidade e muito menos a Igualdade, quanto mais os estabelecidos pelo socialista utópico Louis Blanc em 1839: De cada um conforme seus meios, a cada um conforme suas necessidades.

As falas desses interlocutores formam um coral polifônico em que as diferenças não são convicções vazias, nem lamúrias, mas sim pedras dessas ruínas e contribuem para quebrar o silêncio ruidoso que ainda perdura. São vozes da resistência organizada (essa que muitos juram não existir), que constroem o futuro, esteja escrito ou não no campo da Física. Informações e reflexões novas, repetidas, enfatizadas ou renovadas. É preciso reiterá-las, enquanto existam malfeitos e malfeitorias, enquanto existam poderosos e seus serviçais:

— O Prefeito pode vir, destruir uma casa, remover os entulhos, mas não consegue remover a História do coração do morador… (Irmã Fátima – Estradinha)

— Quanto mais essa cidade é uma cidade-espetáculo, quanto mais está prevista para megaeventos constantes, mais ela precisa garantir uma sensação de segurança. (Deley de Acari)

— De verdade, as melhorias que foram prometidas de esporte, lazer e tal… sinceramente, elas não aconteceram. Fora as tensões que a gente vive com essa situação que a gente não consegue lidar de uma forma amigável porque uma das partes não propõe afetividade… Propõe a repressão, propõe a opressão a todo momento… (Léo Lima – Jacarezinho)

—… a menor das perdas é a casa. O que você perde é a referência. Vocês chamam de pertencimento… (sorriso irônico) palavra nova, né?… (Jorge Santos – Vila Recreio 2)

—… esses jovens também, que estão dentro aqui, que são de periferia… Como é o deslocamento deles? Não se deslocam… Há um prejuízo cultural e de integração muito grande… (Leila de Souza Netto – Pedra de Guaratiba)

Não importa a ordem, cada parte contém o todo.

— A gentrificação mudou muito a favela. As pessoas não se conhecem mais. Os negros que habitavam a comunidade, muitos deles saíram. São os gringos que estão vindo e estão comprando. (Ivanete Aleluia – Vidigal)

— A mídia comercial sempre diz que a gente é minoria, que a gente não tem cultura ou que a gente precisa de alguma interferência do estado. Mas, na verdade, essa interferência do estado é sempre por meio da segurança pública e a gente sempre defende a ideia de que a gente é maioria, de que a gente tem cultura e que na verdade eles precisam controlar a gente porque a gente é revoltado, sim, com a nossa miséria, com a nossa pobreza, com o tanque de guerra que extermina a gente, com o caveirão que está exterminando a gente e com as UPPs que estão acabando com as nossas favelas. (Gizele Martins – Maré)

—… Minha Casa, Minha Vida é pra quem não tem moradia. A gente tinha teto, sim, em comunidade, mas tinha. (Francis da Costa – Favela do Metrô)

— A gente está numa região onde entrou a UPP… Então, a pessoa ser pobre, preto e favelado… fica complicado… A gente tem que estar sempre atento, o tempo todo. Ultimamente há tiros de manhã, tarde, horas em que as crianças estão voltando da escola… (Saulo – Ocupa Alemão)

— A gente vem sofrendo… mas isso não vai passar… A intenção da Prefeitura é a Cidade Modelo. Essa cidade que não é pra pobre, não é pra camelô, não é pra morador de rua… (Maria dos Camelôs)

— Lá vêm eles, os homens brancos! Oferecem teleféricos, planos inclinados e outros planos… Mas, eu – e a favela – não quero teleférico! Eles querem o teleférico. Eles querem subir a favela e não querem se cansar. Mas nossas vós, nossas mães, subiam com lata d’água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria! Elas não tinham Kombi, não tinham carro, muito menos teleférico. Mas tinham a força de Canudos e da Favela. Lá vêm eles, os homens brancos… (Cosme Felippsen – Providência)

Visibilidade e harmonia

Há tantas outras pessoas aqui não citadas, mas creditadas ao longo dos episódios pelos realizadores. Vozes e consciências a quem Contagem Regressiva dá a respeitosa visibilidade de protagonistas da História, que lhes é negada pelos meios de comunicação reacionários e pela pequena-burguesia bem-pensante, essa que se julga dona do saber, mas que não passa de posseira da verdade de seus dominadores.

Tal respeitosa visibilidade não seria suficiente se fosse apenas intenção, gentileza, reverência. Pelo contrário, a reverência e a excessiva polidez podem impedir os documentaristas de irem a fundo na revelação dos fatos ou no registro dos acontecimentos. Podem retirar do filme (afinal, um documentário como este é, gostem ou não os cineastas, uma grande reportagem audiovisual) duas coisas essenciais à dramaturgia: veracidade e verossimilhança.

Contagem Regressiva não me haveria conquistado apenas pelas intenções e discursos de seus interlocutores. Em primeiro lugar, essas motivações precisam ser percebidas e entendidas. Seriam insuficientes as palavras e os gestos desses interlocutores/entrevistados se não as ouvíssemos e os víssemos com clareza, se as captações, mesclas e edições de som e imagem não nos possibilitassem entender cada palavra, olhar os falantes nos olhos, perscrutar seus gestos, situá-los nos ambientes a que pertencem. Sentir o prazer de raciocinar ao mesmo tempo em que a ação se desenvolve e apreender as sutilezas dos gestos, as particularidades de cada cenário. E sem explicitações, perceber que esta caixa de mudança é libertária. Nada impõe. Deixa ao espectador a responsabilidade pela sua própria transmutação..

Quer dizer, aquela respeitosa visibilidade dada aos protagonistas e ao tema iria por água abaixo se os realizadores do filme não garantissem sua inteligibilidade, sem abandonar a preocupação com a forma.

Contagem Regressiva é belo, franco, claro; muito bem dirigido, fotografado, editado, roteirizado e musicado. Se há algo a destacar, é a harmonia de seu resultado e o espírito libertário que o move. Mas preciso dizer com todas as letras: ao contrário de grande parte dos filmes e programas audiovisuais brasileiros a que tenho assistido, maravilhou-me entender cada palavra dita ou cantada e ouvi-las em comunhão com imagens tão belas e fortes.


Roteiro e Direção: Luis Carlos de Alencar;
Argumento Original: Justiça Global, Luis Carlos de Alencar e
Marcel Gonnet Wainmayer;
Fotografia e Finalização: Vladimir Seixas;
Produção: Couro de Rato; Realização: Justiça Global e Couro de Rato;
Edição: Ricardo Gomes e Ricardo Moreira;
Poesia Original e declamação: Elaine Freitas;
Música Original: Contagem Regressiva – Mano Teko e Mc Lasca
(Prod. Jorginho Matarazo); Trilha Sonora: Andrigo de Lázaro;
Videografismo: Isac Maia;
Produção Executiva: Vladimir Seixas;
Assistentes de Fotografia e Still: Caroline da Luz e Henrique Gluck ;
Acervo Fotográfico: Luiz Baltar; Acervo Videográfico: Jornal A Nova Democracia.

Interlocutores:
Irmã Fatima – Estradinha, Jorge Santos, Francicleide Costa, Léo Lima, Gizele Carolina, Deley De Acari, Vanderley Cunha, Saulo Augusto, Lucas Herminio da Costa, @Maria dos Camelôs, Ivanete Aleluia, Ângela de Morais, Orlando Santos Junior, Cosme Felippsen – O Favelado, Roberto Santos Oqg, Renato Cosentino, Marlon Rocha, Marina Ribeiro, Raphael Gennaro, Flavia Mello, Leila de Souza Netto, Helen Nzinga, Monique Lima.


[1] Nas películas em 3D se produz um simulacro de tridimensionalidade, fundamentalmente para aumentar o potencial mercadológico de “enlatados” cujas dramaturgias corriqueiras buscam efeitos catárticos com o fim de bloquear toda possibilidade de o espectador refletir sobre a “realidade” que lhe é oferecida.

[2] Antes de continuar: tenho consciência de que não devo ser o primeiro a ver esta relação entre filmes (ou outros registros em áudio, foto e audiovisual) com o espaço-tempo, mas não conheço ou tenho na memória texto relevante que me possa servir de referência.

[3] Tese para o concurso de Titular de Jornalismo da UFF escrita em 1993, defendida em 1994 e publicada pela Editora Gama Filho em setembro de 1999. Fora de catálogo, pode ser encontrada em sebos físicos e virtuais.

[4] A quem interessar, recomendo a leitura de Introdução à Teoria das Estranhezas, do filósofo Ued Maluf, especialmente, às páginas 74 e 75, as definições de unidade de alta complexidade e inseparabilidade.

Paulo Sergio, palma contra o vidro

Dia dois de novembro é um dia de celebração da vida. Quando, nele, homenageamos os “finados”, na verdade lembramos e honramos o que foram em vida, o que significaram, as boas lembranças que temos deles, sejam nossos parentes, simples amigos queridos ou gênios que nos alumbraram em Artes, Filosofia, Política, Ciências ou na vida cotidiana. Nele, lembramos os mortos como e quando vivos. Dialogamos com sua memória. Um encontro programado com o passado.

Mas este dia é, para mim, o dia de Paulo Sergio, meu filho do meio. Nascido em 1967, há quarenta e nove anos, foi e é motivo de alumbramento para aquele jovem pai (24 anos) e este velho, já avô, que viaja em meio às tormentas de dois séculos que parecem um só. “Sem novidade no front”, repete o finado Erich Maria Remarque, lembrando a I Guerra Mundial, no diálogo privado que acabamos de ter.

1967 foi um ano interessante e difícil. Aliás, meus três filhos nasceram nesse tipo de anos (será que há outros?). Eu não parava nos empregos e fazia mil coisas ao mesmo tempo, escrevia, trabalhava em dois ou três lugares, escrevia freelances e estava reorganizando a juventude do Partido Comunista Brasileiro no antigo Estado do Rio.

A morte de Ernesto Guevara de La Serna, El Ché, me deixara muito triste. Antes de tornar-me comunista, ainda no Colégio Militar, já era seu admirador. Tínhamos um professor de Português muito bom, um major que chamávamos, à boca pequena, de “Amigo da Onça”, pois se parecia com o personagem de Péricles em O Cruzeiro. Ele lia as Seleções de Reader’s Digest, na qual publicavam uma coluna chamada “Meu personagem inesquecível” e mandou que escrevêssemos sobre o tema. Escrevi sobre o Ché e provoquei uma tremenda confusão. Um aluno, filho de sargento, até me chamou para uma briga e me deu uma surra para eu “deixar de ser comunista”. Era o ano de 1960. Nem Cuba nem eu éramos oficialmente comunistas. Mas não me entreguei. A briga, ou a surra, só terminou quando a guarda veio e nós debandamos para não sermos presos.

O nascimento de Paulo Sergio renovou o alento que André Luiz, o mais velho, me trouxera, pouco mais de um ano antes e que fora reduzido pela morte do meu personagem inesquecível. Ainda bebê, eu o levava para as aulas e os ensaios do grupo de teatro (Usina) que fundáramos, eu, Odila (que viria a ser minha companheira e mãe do meu terceiro filho), Fausto Amorim, Antonio Luiz Mendes Soares, as irmãs Marisa e Marilene Calheiros de Alvarenga, Imara Reis, Raquel Régis e outros jovens de Niterói. De quando em quando, Paulo protestava por estar esquecido no carrinho, no meio daquela conversa chata. Eu parava e ia acalmá-lo, com ajuda de Odila, uma grande amiga desde que a conheci, no começo de 1966, mas essa é outra história.

Só o vi crescer até os dois anos. Em 19 de novembro de 1969, quarta-feira, caí na clandestinidade. Em 1970, já preso, ele e André Luiz foram me visitar no Presídio Tiradentes, levados por Mãe Luiza (Barreto Leite) e minha irmã Sandra (ver crônica anterior). Foi maravilhoso e estranho. Por um acordo com a mãe dos meninos, não podíamos dizer que aquela era uma prisão. Era um hospital. Na volta do exílio, em 1979, soube que eles nunca tinham entendido porque havia tantos policiais em um hospital. Cáspite!

O reencontro, no retorno, foi ainda mais emocionante. Eu ainda estava no salão de bagagens e olhei para o saguão de desembarque. Havia um grupo de companheiros do Sindicato dos Artistas, liderados por Vanda Lacerda, a inesquecível atriz e Presidente da entidade, e na frente, dois garotos, de treze e doze anos. Comigo, João Luiz, de seis. Então, Paulo apertou a palma da mão direita, aberta, contra o vidro. Num impulso, cheguei até lá e coloquei minha mão contra a sua, o vidro como uma barreira a separar-nos. Deu-se ali um diálogo silencioso. Como se ambos soubéssemos que o que nos une havia sobrevivido e sobreviveria a novas dificuldades. A mão de Paulo Sergio tocando a minha, apesar do vidro, é marca indelével.

O Paulo Sergio de hoje, professor Sanz, empresário Paulo Sanz; homem bem-sucedido, pai do estudante promissor às voltas com as ciências de seu tempo Paulo Cabral Sanz, contém o Patey dos anos sessenta, aquele menino ativo que me provocou tanta aflição quando esbarrou numa estante na cozinha e tomou um banho de café fervente no apartamento da rua Itaperuna, em Santa Rosa, Niterói. O tempo, o pronto atendimento e a boa saúde logo apagaram as marcas, a não ser em minha memória.

Contém aquele menino depois de uma longa viagem que o levou aos campos da informática, da gestão, da educação e do amor, experimentando, como autônomo ou assalariado, ofícios tão diversos quanto lixar barcos e servir mesas na Califórnia, impressor em serigrafia em Maricá, dono de microlanchonete na Gomes Freire, no Rio.

Tornou-se um homem capaz de amar e de perdoar o pai que não lhe deu a atenção que merecia e necessitava. Soube traçar seus caminhos e ser melhor do que os que o antecederam.

Feliz Aniversário, feliz dia dois de novembro! Eu e a família inteira te desejamos, especialmente teus padrinhos Sandra e Tião.

Minha irmã, Sandra

Hoje, minha irmã de sangue e espírito, Sandra Barreto Sanz de Oliveira, completa 79 anos. Seis mais do que eu.

Sempre foi uma pessoa notável, de uma sabedoria que eu próprio demorei a descobrir. Odila, minha companheira de vida, sempre soube. As duas tinham muito em comum. A maneira simples, a conversa franca e direta. Corresponderam-se durante todo o nosso (de Odila e meu) tempo de exílio. Nessas cartas, Sandra deixou registrada a evolução de pensamento que nos aproximou para além do afeto.

Na nossa juventude, Sandra e eu nos afastamos por questões mal resolvidas de fé. Aos treze anos eu me batizara por influência dela e de Tião, Sebastião de Oliveira, 1972-verao-em-santiago-03-odila-e-sandra-2seu marido e meu padrinho. Aos 19, tornei-me comunista. Comportei-me muito mal com ela. Fazia provocações, como pôr o emblema da foice e do martelo no lugar da estrela de Belém na árvore de Natal. Infantilidades.

Logo, veio o golpe e ela começou a compreender melhor o nosso lado da questão. Sobretudo depois que eu fui para a clandestinidade e Sergio Sanz, nosso irmão, foi preso em meu lugar. Lembrei isto em um conto chamado Era, publicado em uma revista do exílio em Estocolmo: “Não tem tu, vai tu mesmo”. Quando fui banido, ela, os filhos Zé Luiz, Mônica e Mario Sergio, meus sobrinhos, minhas duas mães, Luiza e Maria Augusta, e minha sobrinha Jussara foram ao Chile. Aí se estreitou a relação dela com Odila (na foto, conversam em um ônibus em Santiago) e aprofundou-se nossa interlocução. Não sem tropeços.

Hoje, ela foi passar o dia na casa da neta Nathalia. Já deve haver fotos por aí, registrando o encontro. Sinal dos tempos. Não pude ir. Amanhã vou tomar um lanche com ela, Tião (que continua a ser meu padrinho, embora eu seja anarquista) e quem mais aparecer. Vamos conversar como sempre fazemos, surpresos ainda pela forma como nos tornamos tão próximos, tão amigos. Ela, sempre católica e eu cada vez mais ateu (se isso é possível). Ela, há décadas, petista. Eu, essencialmente ácrata.

Sandra se tornou a sábia anciã com quem me aconselho nas minhas angústias. Papel que era de minhas mães e de Odila. Amanhã estarei em seu apartamento para testemunhar minha admiração e carinho e pôr-me à disposição, dela e de Tião, como fizeram tantas vezes por mim, sem que eu precisasse pedir.

Em 30 de outubro de 1975, ela nos escreveu para Estocolmo. Nós estávamos nos preparando para transferir-nos a Portugal, onde eu iria trabalhar no Instituto de Cinema e Odila voltaria a estudar. Não deu certo. Vinte e cinco dias depois houve o golpe socialdemocrata que afastou a esquerda do MFA e frustrou meus planos. De alguma maneira, Sandra intuiu que isso poderia acontecer e temia uma solução mais trágica do que a que levou heróis do 25 de Abril, como os capitães Otelo e Paulino à prisão:

“Dia 22 levantei feliz, agradecendo a Deus meus 38 anos. Mais feliz fiquei com a chegada da carta de vocês. Sinto uma saudade que dói até os ossos, uma vontade enorme de estar perto, abraçar, beijar, conversar e até brigar. As cartas que chegam aumentam a saudade, mas me fazem feliz.

“Irmãos, é bom viver quando existe a esperança e o amor que a força de Cristo nos dá.

(…)

“Tenho pensado muito na ida de vocês para Portugal. No princípio, tive muito medo de vê-los sofrer mais uma vez, acreditem, a cena do Chile ainda me vem à mente e fico apavorada.”

Agradeço a ti e ao Tião por serem essencialmente bons e solidários, coerentes com o que pregam. E por tudo que fizeram por mim, minha saudosa companheira e meus filhos.

FELIZ ANIVERSÁRIO, MAIS UMA VEZ, MINHA IRMÃ!