Flavia Sztutman (de costas), Danila Gonçalves, Angelita Alves, Mei Hua Soares e Ana Elisa Moro, em uma das cenas mais fortes e belas da ópera: As mulheres da Vida.

A ópera da diversidade

Luiz Alberto Sanz
Fotos: Graciela Rodriguez

O novo espetáculo do Teatro Popular União e Olho Vivo é, de todo o seu repertório, o mais identificado com a concepção brechtiana de um teatro épico, não aristotélico. As façanhas e desventuras de seus personagens e das gentes que simbolizam são relatadas pelos atores e avivadas por primorosos figurinos, adereços, objetos de cena, música, direção e interpretações. Um mosaico no qual interagem os 53 anos da História construída pelo grupo, a experiência de profissionais que a ele somaram sua técnica e uma nova geração de intérpretes, muitos enfrentando o público pela primeira vez neste domingo 16. Não-aristotélico, contemporâneo e bem brasileiro.

Epopeia dos desvalidos

À medida que conta a história de Neriney Moreira e do TUOV, o espetáculo descortina a vida dos migrantes que contribuíram para tornar o bairro e a capital paulistana referências cosmopolitas, onde se enraizaram e enraízam trabalhadores, artistas, educadores e esportistas, das mais diferentes origens, e de seus descendentes. A marca cosmopolita está expressa em cena, mas também na composição do elenco, sem ter sido intencional. Basta ler a ficha técnica para encontrar nomes e sobrenomes eslavos, judaicos, italianos, grego, castelhanos e aqueles adotados pela imensidão de escravos trazidos para dar conforto e fazer o trabalho sujo e pesado para os primeiros colonizadores, fugidos da pobreza em Portugal e tornados senhores na terra brasilis.
A cruel exploração da mão de obra começou com a captura, servidão e, finalmente, dizimação dos orgulhosos e resilientes tupis e guaranis, seus habitantes originais, lembrada cirurgicamente pelo Saci, boneco que se torna um dos protagonistas, continuou e continua com os africanos, imigrantes forçados, judeus, turcos, árabes, bolivianos, italianos, coreanos, refugiados econômicos e políticos que vieram “fazer a América”, aqui descobriram que a vida não era tão acolhedora quanto esperavam. Mas esta epopeia é contada e cantada à brasileira, com canções e palavras fortes e belas, que nos fazem pensar e refletir. O público das duas sessões de domingo (teatro à “antiga”, atores estreantes enfrentando duas sessões “de cara”) evidenciava estar refletindo sobre o que se passava na “passarela” da rua Newton Prado 766. Compenetrado, aplaudiu algumas vezes em cena aberta e foi até o final pendente do que lhe diziam as vozes, os olhares, a expressão corporal, as peças de vestuário e adereços, os instrumentos musicais, a iluminação, o cenário minimalista, os objetos de cena variados e de um refinamento notáveis, em contraste e, ao mesmo tempo, dialogando com o velho galpão em que “mora” o TUOV. Fechado o portão, na escuridão do final, explodiu em aplausos. Não foram submetidos à catarse aristotélica, mas levantaram-se para aplaudir de pé o chamado para retomar a vida e agir para mudá-la.

Mosaico da Liberdade

A linha condutora da dramaturgia do TUOV é contar e fazer refletir sobre as lutas de nosso povo pela Liberdade. É uma linha que, pelo caminho, foi adotando métodos libertários e avançou no processo de criação coletiva, presenteando-nos com este espetáculo pesquisado no bairro, nos livros, em documentos e entrevistando quem pudesse contribuir para formar tal mosaico, pois como diz o narrador, “tempo não é dinheiro, é o tecido de nossas vidas”, criado e costurado em cena, ensaio por ensaio, para só virar texto quando amadurecido como pedras que ferem a boca e só se tornam palavras quando definitivamente ditas.
O filósofo Ued Maluf, meu colega e mestre, na sua Teoria das Estranhezas, formulou o conceito de “mosaico de isomorfos”, muito próximo às teorias de Proudhon, que, simplificando, estabelece que um mosaico de isomorfos apreciado no seu conjunto é uma “unidade diferenciada de alta complexidade”, mas os isomorfos, que se modificam na mútua interação, não perdem sua individualidade e podem ser apreciados como os fragmentos que são. “Bom Retiro, meu amor” é um perfeito exemplo de um mosaico de isomorfos. Seus fragmentos interagem e formam uma unidade complexa, mas podem ser recombinados sem que o conjunto se perca. O que eu quero dizer?
Quase todas as cenas podem ser mudadas de lugar, sem que a coerência da história se perca, os atores, se necessário podem dizer as falas de outros, acrescentando um elemento novo, uma “quebra dramática” à narrativa. E o elenco não é homogêneo, não sofre dessa doença que infecta as artes e a vida, a pasteurização. Eles são um coletivo, criam em conjunto, mas mantêm sua individualidade: olham em nossos olhos com olhares pessoais e intransferíveis; fazem suas coreografias e movem-se, mesmo em grupo, com seus toques próprios, revelando, no “subtexto” o notável trabalho de Marilda Alface, a preparadora corporal. É um teatro coletivo feito por indivíduos, em um grupo teatral autogestionário.
A pergunta de uma imigrante, logo ao começo, “Quem é dono aqui” não tem resposta possível e este espetáculo mostra isto. Provavelmente, não seria o que Cesar Vieira teria escrito só, mas é o que grupo pôs em cena, como queria pôr e que ele aclamou. Ali, naquele galpão, encenado como Teatro de Cortejo, está o passado do União e Olho Vivo e do Bom Retiro, mas está também seu presente e seu futuro, nos corpos e nos sentimentos dos jovens que se somaram aos veteranos em busca de uma nova vida.

 
Ficha Técnica
Coordenação Geral: César Vieira (Idibal Pivetta), Graciela Rodriguez e Neriney Moreira/Direção Teatral e Dramaturgia: César Vieira (Idibal Pivetta)/Codireção Teatral: Rogerio Tarifa/Comissão de Dramaturgia: Mei Hua Soares, Rogerio Guarapiran/Coordenação Artística, Cenografia e Figurino: Graciela Rodriguez/Direção Musical: Rogerio Guarapiran/Coordenação Musical: Cesinha Pivetta, Rogerio Guarapiran/Elenco: Ana Elisa, Angelita Alves, Babi Pacini, Danila Gonçalves, Dante Kanenas, Edson Rocha, Flávia Sztutman, Juma Tanaka, Leandro Soussa, Lívia Loureiro, Lucas Cruz, Mei Hua Soares, Neriney Moreira, Oswaldo Ribeiro, Pedro Fraga, Rogerio Guarapiran/Músicos: Babi Pacini, Oswaldo Ribeiro, Pedro Fraga, Rogerio Guarapiran/Preparação corporal: Marilda Alface/Iluminação: Gil Teixeira/Assistência de Cenografia e Figurino: Lívia Loureiro/Ajudantes de Cenografia e Figurino: Juma Tanaka, Edson Rocha/Treinamento de Atuação: Luís Mármora/Treinamento Vocal: Ester Freire/Colaboração na Pesquisa: Walter Quaglia e Luiz Alberto Sanz/Direção de Produção: Maria Tereza Urias/Produção: Natasha Karasek/Assistência de Produção: Renê Costanny/Assessoria de Imprensa: Luciana Gandelini/Registro Fotográfico: Graciela Rodriguez/Registro Audiovisual: Nana Ribeiro, Pedro Cortese/Design Gráfico: Julia Pinto
Temporada 12 a 20 de janeiro de 2019 – Sextas às 21h
Sábados e Domingos às 16h30 e 20h/Classificação: Livre – Ingressos: Gratuitos/Onde: Teatro Popular União e Olho Vivo
Rua Newton Prado, 766, Bom Retiro – São Paulo-SP Informações: (011) 33311001 / teatropopularuniaoeolhovivo@gmail.com http://www.facebook.com/tuovivo
Dante Kanenas introduz os imigrantes, enquanto Luka Krsux,
Angelita Alves, Edson Rocha, Flávia Gonçalves e
Ana Elisa Moro se adereçam para a vida no Bom Retiro.
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2 comentários sobre “Bom Retiro, meu amor

  1. Fantástica percepção sobre a obra criada neste novo espetáculo do TUOV. A simbologia, os signos apresentados por todo espetáculo foram muito bem captadas pelas suas palavras tão gentis e doces… Como o mel da cana de açúcar, como o doce trabalho de uma montagem nova e principalmente como a beleza de pisar pela primeira vez em solo sagrado que é o que representa o Teatro Popular União e Olho Vivo e abrindo o coração cantar junto com todo grupo músicas que acompanham o grupo desde sua fundação… Sou como soca de cana, me cortem que eu nasço sempre!!! Um grande viva e palmas para o TUOV que em seus 53 anos de vida se reinventa e cativa novos atores, pessoas que como eu acreditam na força do teatro popular… Grande abraço Luiz!🎉🎉🎉🎉🎉

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